Turista sem seguro gasta quase R$ 17 mil ao ter crise renal em viagem de férias

Turista sem seguro gasta quase R$ 17 mil ao ter crise renal em viagem de férias

Viajantes e especialistas contam por que o seguro viagem é importante e ensinam como escolher uma apólice

A última coisa que vem à cabeça quando se sai de casa para viver uma experiência mágica na Disney é acabar em uma maca com agulhas presas às veias na madrugada. Mas foi o que aconteceu com o empresário Marcelo Jordan, de Curitiba, em 2009. Ele foi para Orlando, nos Estados Unidos, com a esposa e duas filhas. Em uma das noites no hotel, se sentiu mal.

Temendo um infarto, a família solicitou um médico no quarto. Em instantes, uma operação envolvendo ambulância, caminhão de bombeiros e uma viatura da polícia apareceu no local. “Nos Estados Unidos, eles são exagerados com essas coisas”, lembra Jordan.

A dor lancinante que assustou o empresário era um cálculo renal, cujos cuidados precisaram apenas de uma noite à base de soro, medicações e observação no hospital. Mas um segundo susto veio com a conta: 5.400 dólares — nos valores de hoje, quase R$ 17 mil —, que Jordan precisou pagar de improviso, sacando seu cartão de crédito e o da mãe, que havia levado por garantia. “Dentro da ambulância já tive que passar 400 dólares”, lembra.

Comprar para não usar

O empresário havia saído do Brasil sem o chamado “seguro viagem”, que pode ser acionado neste tipo de encrenca. “Eu estava passeando com a família”, justifica. “Tínhamos viajado outras vezes com seguro e nunca havíamos usado. Acabei não fazendo por teimosia.”

O montante precisou ser parcelado na volta e a conta se arrastou durante meses, engordada pelos juros do rotativo. O episódio converteu o empresário: não dá para viajar sem o maldito seguro. “Quando você menos espera, vai precisar”, diz, lembrando da viagem que fez já no ano seguinte, também para os Estados Unidos.

Desta vez, logo em seus primeiros minutos em solo americano, Jordan tirou um naco de dedo ao fechar um porta-malas no desembarque. Foi parar no hospital de novo, com a mão ensanguentada enrolada num papel toalha que pegou no banheiro do aeroporto de Miami. Foram cinco pontos, uma diária extra no hotel para tirá-los e uma fatura de 2.600 dólares — mais de R$ 8 mil na cotação de hoje. “O seguro cobriu tudo”, lembra. “Depois destes episódios, nunca mais precisei. Mas sempre viajo com seguro.”

Planejamento de viagem

Sérgio Buzzi, gerente de benefícios na região Sul da MDS Brasil, tem histórias ainda mais assustadoras sobre prejuízos causados por emergências médicas no exterior para viajantes incautos. As piores são nos Estados Unidos, onde o seguro viagem não é obrigatório e os custos médicos, já altos, acabam sendo multiplicados pela diferença de câmbio.

Ele conta já ter ouvido sobre um caso de apendicite aguda que se agravou e gerou despesas hospitalares na casa de R$ 180 mil, e sobre cirurgias ortopédicas de emergência que saíram perto de R$ 50 mil.

É conversa de uma parte interessada, naturalmente — a MDS oferece coberturas por meio do Assist Card, um dos principais serviços disponíveis no país. Mas, em comparação com outros gastos de uma viagem internacional, uma cobertura de alguns dias é uma despesa relativamente fácil de arcar.

Em fevereiro, a associação Proteste divulgou um levantamento com apólices das principais seguradoras para a cobertura de 30 mil euros e 50 mil dólares em uma viagem de 15 dias. Para a cobertura em dólar, os preços partiam de cerca de R$ 260. Em euro, de R$ 222 (as cotações foram feitas em setembro de 2016). Cotações da Assist Card feitas para a reportagem do Viver Bem para viagens à Europa começam em R$ 228 para uma viagem de 13 dias.

“[A pessoa que decide economizar o gasto com o seguro] para usar o dinheiro lá fora em um passeio faz uma aposta. Mas, se tiver uma queda, uma enfermidade ou acidente, isso pode custar muito para ela”, diz Buzzi.

Ziquizira internacional

A opção por não contratar um seguro viagem é rara quando se trata de um destino na Europa, já que o turista poderá ser proibido de entrar em alguns países. Especialmente em pacotes comprados nas agências, que orientam os viajantes. “Tivemos casos na agência de passageiros que quiseram ir sem fazer e foram mandados de volta”, conta Mario Miki, da StarOver Viagens e Turismo.

Veneza, na Itália. Foto: tubblesnap/Visual hunt

Veneza, na Itália. Foto: tubblesnap/Visual hunt

Os países europeus pertencentes ao Tratado de Schengen obrigam o turista a ter um seguro viagem de pelo menos 30 mil euros para entrar no território — são eles Áustria, Bélgica, República Checa, Dinamarca, Estônia, Finlândia, França, Alemanha, Grécia, Hungria, Islândia, Itália, Letônia, Liechtenstein, Lituânia, Luxemburgo, Malta, Holanda, Nuruega, Polônia, Portugal, Eslováquia, Eslovênia, Espanha, Suécia e Suíça.

Foi na Europa que a administradora Monica Budni também viu o sistema funcionar na prática. Em maio deste ano, ela fez uma viagem de dez dias pela Itália com uma amiga. Na volta a Curitiba, já no aeroporto de Veneza, a companheira de viagem começou a sentir dor abdominal.

O médico do aeroporto não autorizou o embarque e encaminhou o caso para o hospital. O resultado foram três dias extras na cidade italiana e algumas centenas de euros a mais — quase tudo coberto pelo seguro, da Vital Card.

“Era algo que não estava previsto no orçamento da viagem. Só a ambulância custou 200 euros — ainda bem que guardamos um pouco”, conta. “O seguro traz uma segurança a mais em um país que você não conhece, porque você fica nervoso, se complica com a língua”, conta.

Os agentes fazem a recomendação mesmo quando não há obrigatoriedade — principalmente quando o destino tem moeda mais forte que o real ou apresenta maiores dificuldades para o viajante em casos de emergência, explica Diego Klas, diretor da Klas Viagens e Turismo, de Curitiba. É o caso de países em que a comunicação, por exemplo, é mais complicada — ou em que a estrutura de saúde é precária.

“Em destinos exóticos, onde não se conhece a língua, a cultura e a gastronomia, e onde a alimentação muda muito em relação ao Brasil, a possibilidade de se ter algum problema com alimentação é maior”, explica. “Acabamos recomendando para evitar problemas maiores.”

A mesma orientação vale para viagens dentro do Brasil, quando a cobertura do plano de saúde privado — se o viajante tiver — não serve para o destino em questão. “E é o tipo de produto que se compra para não usar. Mas, se precisar, tem essa segurança”, explica Klas.

Seguro viagem: como escolher

As principais orientações sobre como escolher um seguro viagem, de acordo com o técnico da Proteste Rodrigo Alexandre, envolvem a avaliação de todos os serviços que estão incluídos nas coberturas — incluindo os valores previstos no contrato — para evitar surpresas. “Ou seja, para não descobrir somente depois que precisar acionar o seguro que não possui determinada cobertura ou que o valor é muito baixo para indenizá-lo”, explica.

“O consumidor precisa verificar se o plano possui as coberturas mínimas necessárias para uma viagem, como por exemplo, cobertura médica em caso de acidentes, cobertura médica em caso de doença, seguro de vida, extravio de bagagem e etc”, orienta.

O representante da Proteste também lembra que, embora todos os seguros viagem respondam à Superintendência de Seguros Privados — Susep, autarquia federal responsável pela fiscalização do serviço —, é recomendável pesquisar a respeito da idoneidade das empresas em sites de reclamações e de entidades de defesa do consumidor antes de fechar a compra. Além das já citadas, entre as principais seguradoras que oferecem o serviço no país estão a Bradesco Seguros, Chubb e Omint.

Fonte, Fotos e Textos: Gazeta do Povo